Terça-feira, Setembro 09, 2008

Corpografia


















Sei de um tratado em papiro
Guardado no berço luzente do peito
Teço meus rios
Paralelos com outros rios
São instantes maduros de nascente
Exalados na brisa, no pêndulo do vento
Aceso olfacto nas pontas dos dedos
Concebidos em gestos, mãos silentes
Não sei se é linguagem
Essa valsa de hemácias
Cuja boca penetra a voz
E me acaricia com seus lábios de vinho
Arqueia-se o sol, ícone em rubro
A morte sobe pelos dedos
Desfaz-se em embriaguez
Tornando mais fogo a sede de dilúvio

Sábado, Agosto 30, 2008

(...)


















Deixo que as mãos pousem em orvalho
O corpo inteiro decantando o movimento
deixa-se cair sobre uma serafina silenciosa
que com a sua língua escarlate
abrasa as palavras
e as queima antes de serem

Mesmo que a luz se apague
Um dia talvez
O torso lembrando o respirar da vela
inflame as varandas por dentro viradas ao centro
A noite possa ter portas e o silêncio encontre
o seu bronze num poente em brasa
Os dedos teçam a voz que me fecunde o ventre
E o fósforo dos olhos esverdeie
enquanto as pálpebras bebendo de um só trago
me devolvem os sonhos que rebentam como brotos
e serenamente se abrem em floradas

Foto de Luís Mendonça

Segunda-feira, Abril 07, 2008

In_verso


















Escrevo na parede de dentro da escrita
As mãos avolumando o seio da folha em branco
Uma fala alumbrada na tinta que me veste os dedos
Soletra a palavra acesa que na fuga se faz ave
Falena palpando uma música que poreja
Amásia que me aplaca o fogo das asas

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Pérgula


















Beber da pálpebra dos lábios
Uma fala livre, canoeira da língua que nos devolva tudo
Percorrer as calçadas do bordado
O braço das raízes moldando o orvalho à soleira do jardim
Chegar ao ponto alto
Onde as polpas dos dedos procriam a ramagem do vento
E as cachoeiras deslizam na planura das boninas
Colher o álacre do hálito na pele em brasa
Declive onde o corpo se abisma

Domingo, Março 23, 2008

Colirium


















Coloca uma palavra
No vale da minha nudez
E planta vinhas de sol de ambos os lados
Para que quando a brasa for alfombra
Minha boca fique toda à sombra
E se torne carícia o fogo do astro

Domingo, Março 09, 2008

Ardentias



















Escrever no timbre da concha
Onde os dedos não se cansam
Desenhar-me com sede
Língua de fogo, península acesa
Onde as velas pedem ventos
E as palavras bordejam
As praias rochosas das ilhas

Querer ir além da pele
Derramar-me liquida sobre o mar
Ser onda indefinidamente
Desaguada, sem medir margens

O sol ruiva e o vento uiva
Há cópulas de ondas molhadas
Onde a nudez se precipita
A luz mordendo o ventre das águas


Domingo, Fevereiro 24, 2008

Iridiscências


















Penduro a noite nos varais dos olhos
como quem busca asilo num sol poente
Sinto o tamborilar da chuva nas lajes do corpo
como que se uma asa de pássaro me tocasse
Escuto o ritmo do universo fundido nas pontas dos dedos
Corolas abertas se oferecem
Acende-se o sorriso interior das bocas
A raiz que a luz inventa nas mechas que os olhos atiçam
Retêm os lábios o sopro das auroras nocturnas
que explica a súbita eclosão crismada na luz de várias luas
Adormecem-me os dedos despenteados
à cabeceira da noite tingida de vermelho